sábado, 16 de abril de 2016

Qual o efeito que o impeachment tem sobre a alma das pessoas?

Por Vandeck Santiago
Qual o efeito que o impeachment de um presidente tem sobre a alma das pessoas? Desculpem-me por tratar de uma questão talvez menor, sei que todos querem saber é dos efeitos na economia e na política, mas eu estava lá, no impeachment de Fernando Collor em 1992, e posso dar um testemunho. O sentimento que predominou após aquele ato foi o da concórdia entre os brasileiros. Acordaram no dia seguinte mais animados, esperançosos sobre o futuro, como se tivessem participado, ou sido testemunhas, do reencontro definitivo do país com a democracia - fazia apenas sete anos que a ditadura chegara ao fim. 
Não quero parecer pessimista, mas o sentimento que vai predominar neste domingo não será o da concórdia. Será o da discórdia. E não importa o que aconteça: tanto faz o impeachment da presidente Dilma Rousseff ser aprovado quanto rejeitado. O clima de confronto instaurado no país desde as eleições de 2014 se manterá, independentemente do resultado da votação. 
Em 1992 havia um consenso sobre a saída de Colllor - empresários, políticos, trabalhadores, movimentos sociais e estudantes, muito estudantes. Agora em 2016 não há consenso sobre nada - até uma ordem de votação torna-se polêmica a ponto de ser debatida no STF, como aconteceu anteontem com o rito de votação do impeachment. Como parte dessa discórdia, vem a desconfiança de que de uma forma ou de outra todos estão sendo parciais: juízes, polícia, imprensa, autoridades… As forças em disputa não identificam, no meio dessa tempestade, aquela figura idealizada do “magistrado” - uma instituição ou pessoa cujas decisões sejam tomadas com independência, e não para favorecer o lado A ou lado B. Aqui temos novamente um paralelo com 1992: naquele ano o vice, Itamar Franco, manteve-se distante do afastamento de Collor, sem participar das articulações que levaram à derrubada do presidente. Agora, em 2016, o vice Michel Temer é protagonista das articulações pela saída da presidente. 
A presidente Dilma afirmou em entrevista que, se o impeachment for rejeitado, buscará um pacto com todas as forças políticas e empresariais. É um apelo que pode até ser atendido, mas chega tardiamente - ela teve cinco anos para fazê-lo e não o fez. Do outro lado, Michel Temer também fala em reconciliação, mas age acintosamente (o termo se emprega aqui dada o cargo que ele ocupa) pela derrubada da pessoa de quem foi vice por mais de cinco anos, a ponto de já ter até treinado o pronunciamento para o momento seguinte à queda. Além de ter como principal aliado nessa articulação o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que é réu na Lava-Jato, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro. Situação que o insuspeito New York Times expôs em longa matéria na edição de ontem, afirmando que “alguns dos deputados mais ativos na pressão pelo impeachment de Dilma enfrentam sérias acusações de corrupção, fraude eleitoral e abusos dos direitos humanos”. Diz a matéria que Dilma é “uma raridade entre a maioria dos políticos do Brasil”, porque sobre ela não pesam acusações de corrupção ou roubo do dinheiro público. 
O impeachment é uma ruptura, um trauma a ser sentido pelas forças que são postas para fora do poder e para seus aliados. Isso quase não se sentiu na época de Collor dada a falta de base social e política dele, e do escasso apoio popular com que contava no momento. Havia, naquele momento, um sentimento generalizado de que ele cometera algum ilícito no exercício da Presidência. Com Dilma é diferente: ela tem base social e política e não há uma acusação contra a sua honestidade. Para aqueles que são contra sua saída, o impeachment terá um impacto profundo, em um misto de perda e revolta. 
Já na hipótese de o impeachment ser rejeitado, o sentimento de perda e revolta estará na alma daqueles que vêm lotando as ruas em protestos continuados contra o governo, Lula e o PT. 
Em um ou outro caso, teremos sempre uma parcela de brasileiros descontentes e indignados, ávidos por expressar sua indignação, e que não verão credibilidade no governo. Gostaria de estar aqui hoje com uma mensagem otimista; os fatos, porém, falam mais alto. O sentimento que sairá da votação deste domingo não será o da concórdia.

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